Adaptação da resenha de Dorotéia Pires.
"O que seria de uma orquestra, se cada músico tocasse o que quisesse? Se não houvesse disciplina? Ela é necessária. E deve ser analisada como um meio e não um fim" Vasconcellos.
"O que seria de uma orquestra, se cada músico tocasse o que quisesse? Se não houvesse disciplina? Ela é necessária. E deve ser analisada como um meio e não um fim" Vasconcellos.
Motivado pela questão da ausência da disciplina em sala de aula, o pedagogo Celso dos Santos Vasconcellos publicou recentemente sua pesquisa: Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola.Uma das maiores dificuldades em sala de aula é, sem dúvida, a indisciplina na educação, ela tornou-se um grande desafio e cada vez mais tem sido alvo de preocupação das escolas, da direção, dos pais e professores.
Da pré-escola à universidade, nunca a relação professor-aluno esteve tão difícil.
Assim como um médico, em sua formação acadêmica, de modo geral não é preparado psicologicamente para receber os inevitáveis impactos e problemáticas características de sua profissão, também o professor geralmente não recebe por parte da escola e por comodismo próprio o suporte para administrar esta série de microcosmos com diferentes composições genéticas, origens, histórias, famílias, expectativas, pensamentos, experiências etc.
Vasconcellos pergunta: "Como desencadear um processo de aprendizagem num universo tão diversificado?" (1994, p. 34).
Os agentes sociais ¾ a Igreja, os partidos, a família, a escola, a ciência ¾ não estão com seus autogovernos definidos, vitimando e desorientando o aluno. Estão em uma crise que merece um enfrentamento e um envolvimento maduro e consciente por parte de todos. Não se trata de descobrir os culpados. As causas da indisciplina estão entrelaçadas com a sociedade, a família, a escola, o professor e o aluno. São problemas familiares, carências, influências da TV, de toda a mídia, o que demanda uma atuação organizada e articulada em todas as frentes.
A família e a escola mudaram muito. Antes, a família era cúmplice da escola. Hoje deposita suas funções e delega suas responsabilidades a ela, porém a critica. Cada vez mais os alunos vêm para a escola com menos limites trabalhados pela família.
Houve uma profunda mudança na relação escola-sociedade e não percebemos. A sociedade mostra-se imatura pelo alto consumismo, levando à busca da satisfação imediata do prazer, diminuindo a capacidade de tolerância à frustração e aumentando a agressividade, a violência, a crise ética da corrupção, do "levar vantagem em tudo". A indisciplina na sala de aula comparada à indisciplina social não é tão grave. Conforme Vasconcellos, "segundo alguns analistas, daqui a algum tempo teremos no país apenas duas categorias de pessoas: os que não comem - porque não têm o que comer ¾ e os que não dormem ¾ de medo dos que não comem..." (1994, p. 24).
Vasconcellos (idem, p. 24) nos alerta que "a sociedade espera que a sala de aula seja um lugar de submissão, de doutrinação, de seleção natural, de domesticação".
E a escola? Funciona ou está reproduzindo esse sistema? O que a escola está fazendo dentro da sua autonomia relativa? Para que tipo de sociedade está colaborando? Ela quer formar o cidadão ativo, responsável e autônomo, mas não lhe dá a oportunidade de exercitar-se. É quase sempre constituída por um aglomerado de pessoas e não por uma equipe de trabalho. Apresenta propostas curriculares desarticuladas e anacrônicas.
E o educador? Qual é a sua postura: autoritária, conformada, comprometida, desesperada, desanimada, consciente? Que visão tem de sua ação pedagógica? Repressiva ou liberal? Vê o aluno como um mal necessário e a liberdade como um monstro subversivo e corrosivo, ou tem medo de ser repressor, quer ser legal e exalta o descompromisso, o espontaneísmo e a atitude do "cada um na sua"? Este último, pelo abandono e pela falta de responsabilidade, disciplina e conteúdo, acabam sendo desmoralizados pelos alunos "libertados". Esses extremos aumentam o descompromisso e o descaso, transformando o movimento educacional num processo destrutivo.
Essas relações mostram-se alienadas. O professor espera que a classe faça silêncio para poder dar aula; o aluno quer logo ir embora e receber a nota; a direção não quer problemas e os pais querem que o filho seja aprovado objetivando a ascensão social.
Quantos professores há que não estão preocupados com o futuro do educando, mas sim em sobreviver como educador. Não encaram o aluno-problema como desafio pedagógico. O professor que apenas quer obter o silêncio tem visão estreita. Os repressores conseguem uma disciplina que se esvai quando os alunos não estão na sua presença. O ideal é mostrar os limites, mas também as possibilidades, geralmente esquecidas. A educação por coação produz uma personalidade dependente, imatura e pouco criativa.
O professor não entra sozinho na sala de aula. Vão com ele os colegas, os funcionários, as regras, as vivências, toda a instituição está representada. Que imagem os alunos fazem da escola?
O professor precisa refletir a sua prática, fazer uma autocrítica. Sem uma definição clara do seu papel, não estará em condições de educar, dado que o aluno capta isso com muita facilidade e explora essa fragilidade. A falta de convicção da proposta do professor gera um acúmulo de dificuldades, podendo chegar a uma confusão generalizada na sala de aula.
Há um consenso de que sem disciplina não se pode fazer nenhum trabalho pedagógico significativo.
Em uma mesma escola existem professores conseguindo realizar um bom trabalho. Assim sendo, será que existe o aluno indisciplinado "em si"? Para Rosemberg, "é preciso saber ouvir e compreender a mensagem que se esconde por trás do comportamento manifesto como indisciplina" (apud Vasconcellos 1994, p. 50).
Trata-se de redimensionar o problema. A questão central não está na disputa entre professor e aluno, mas na organização do trabalho coletivo em sala de aula para se realizar a construção do conhecimento, quando o professor é o articulador da proposta, o coordenador do processo de aprendizagem e deve assumir seu papel de agente histórico de transformação da realidade, por meio de um ensino exigente e inteligente. Estar inteiro na sala de aula, manter a tensão entre a ternura e o vigor, o porto seguro e o "mar aberto", entre direção e participação.
Cabe a ele resgatar valores do passado, mas estar aberto aos novos valores emergentes, em função das necessidades colocadas pelas contradições sociais, políticas, econômicas, culturais, num processo de continuidade-ruptura, numa visão dialética.
O ideal seria uma disciplina consciente e interativa, marcada por participação, respeito, responsabilidade, construção do conhecimento, formação do caráter e da cidadania.
A disciplina deve formar o aluno "como pessoa capaz de pensar, de estudar, de dirigir ou de controlar quem dirige" (Gramsci 1982, p. 36).
Não queremos mais a educação tradicional autoritária, mas não desejamos a educação moderna, de cunho espontaneísta.
A efetivação de uma disciplina democrática na universidade depende da democratização da sociedade, na medida em que esta assumir uma nova ética social (superar a "Lei de Gerson"), valorizar a educação e adotar uma nova política para os meios de comunicação.
Vasconcellos conclui que "os educadores devem se comprometer com o processo de transformação da realidade, alimentando um projeto comum de escola e de sociedade", como numa orquestra.
"...Ninguém educa ninguém. Ninguém se educa sozinho. Os homens se educam em comunhão, mediados pela realidade. (Freyre, apud Vasconcellos 1981, p. 79)
* Resenha da obra de Celso dos Santos Vasconcellos, Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. São Paulo: Libertad, 1994.
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